Dom João Carlos Petrini: O nascimento de uma
criança portadora de anencefalia é um drama para a família e, especialmente
para a mãe, e é justo pensar formas de ajuda, de apoio, de manifestação de
solidariedade com a mãe para que ela não se sinta sozinha para enfrentar esse
drama. Persuadi-la que o melhor é abortar o seu filho, revestindo de legalidade
o ato de eliminar o filho-problema, não é a melhor resposta, não usa plenamente
a razão porque não leva em consideração todos os fatores presentes: não
considera o drama que acompanhará aquela mulher pela incapacidade de acolher o
seu bebê e pela decisão de expulsá-lo de seu ventre. Não considera o direito do
filho a nascer. A objeção de que é destinado a morrer em breve tempo não
procede. Por acaso, há alguém que nasce e não tem como última meta a morte?
Podendo prever a morte daqueles que não chegam à maturidade, iríamos
eliminá-los também? Quem pode determinar o prazo mínimo para que uma vida
humana seja acolhida?
Na avaliação do senhor,
uma eventual legalidade do aborto de anencéfalos, a partir da decisão STF, pode
abrir precedente para outras flexibilizações do aborto e permissividades para
demais ações de eugenia?
Dom Petrini: Alguns princípios
constituem como colunas que sustentam a vida social. O mais importante deles é
a inviolabilidade da vida humana, sua indisponibilidade, por não se tratar de
alguma coisa, mas de alguém que não é fabricação nossa. Uma vida inocente não
pode ser negociada no mercado, nem nos parlamentos e nem nos tribunais. Abrindo
exceção a esse princípio, abre-se uma brecha não só na lei e na prática do
aborto, mas na consciência das pessoas: entende-se que uma vida que traz
problemas pode ser eliminada. Uma lei ou a sentença de um Tribunal não só
regulamenta um tema problemático, mas tem um extraordinário poder de formar a
consciência coletiva. A recente difusão da violência no Brasil está certamente
associada a estas brechas.
Diante da iminente
apreciação do STF sobre o caso, que atitudes a Comissão Episcopal para a Vida e
Família espera dos cristãos e como pretende divulgar e firmar a posição
contrária da Igreja à descriminalização do aborto de anencéfalos?
Dom Petrini: A Comissão Episcopal
para a Vida e a Família espera dos cristãos uma postura mais clara e explícita
de valorização da vida humana desde a concepção até a morte natural, dando
testemunho que os possíveis dramas, quando abraçados com amor, tornam-se fonte
de maturidade, riqueza humana extraordinária. Não fugir do drama, mas abraça-lo
é o caminho de uma dignidade e de uma grandeza humanas sem comparação. Esta
postura, na contramão da cultura da banalidade hoje dominante que desvaloriza
tudo, inclusive uma vida humana em formação no ventre materno, pode documentar
que a morte não é solução, e que maior que a morte é o amor de Cristo que a
venceu. Disso nós somos testemunhas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário